quarta-feira, 22 de abril de 2015

Uma verborragia só.

Dizem que é preciso esquecer para seguir em frente
Dizem que é preciso ter amor próprio para não acabar com a gente
Dizem que é preciso sorrir para espantar os males
Dizem que é preciso sentir para viver nesse mundo de pesares

Dizem que devemos renunciar para amar
Dizem que devemos cuidar no ato e por quem apaixonar
Dizem que devemos nos importar para nunca fingir
Dizem que devemos desabafar por não acabarmos por puir

Dizem que não se pode pensar como criança
Dizem que não se pode deixar para trás aquela velha infância  
Dizem que não se pode guardar rancor
Dizem que não se pode viver assim, com tanta dor

Dizem que é preciso
É preciso, dizem
Mas apenas parem de dizer
Eventualmente, a gente para de precisar
Eventualmente, não mais que não por vontade da gente

sexta-feira, 3 de abril de 2015

"Se você quer construir o amor, deve colocar o ódio para baixo"

       O amor às vezes me lembra o quão difícil é encontrar uma saída. Eu tenho tanto medo de perder que não é raro eu pensar três ou quatro vezes antes de falar algo. Porém tenho ficado um pouco menos arredia nos últimos tempos. Talvez por alguns acontecimentos eu acabei me convencendo que quando a gente "pode ser", a gente deve começar pelo "vamos tentar". 
       A dúvida, claro, é inerente a toda nossa vida. A gente não pode saber o que o destino no guarda. A gente nunca tem certeza do que virá, mas podemos ter certeza do que queremos que venha, e dar um jeito de correr atrás. O amor é mais ou menos assim. Se temos um mínimo que for de pontada de saudade, pode ser que, se dermos uma chance, logo estaremos amando, mesmo que seja o amor mais puro que existe, o de simplesmente querer o bem de alguém. Tenho muitos assim, e posso lhes garantir que é bom. 
        Muitos me criticam com esse pensamento, porque dizem que o destino é que sabe o que virá, mas ainda que eu ache que ele tem sua participação no tempo e espaço corrente, não acredito que ele deve ser o culpado de tudo. Porque é isso que procuramos, não? Um culpado? Pois lhes digo também que o destino está aqui para nos lançar algumas expectativas e para nos fazer sentir aquela incompensável magia quando pensamos que foi por ele que algo aconteceu. Ele faz os acontecimentos ainda mais especiais, únicos, ímpares, isso é fato, mas o fato não se encerra em si por causa do destino. Acredito que geralmente começa por ele, mas não é por ele que passaremos a sentir isso ou aquilo, a ver a vida diferente. O destino não nos pega pela mão e nos leva para onde devemos ir, ele monta a estrada, caminha conosco uns três tijolos e deixa a nossa vontade irromper e ir florescendo as próximas milhas.
       Acho que uma das coisas que mais incomodam nessa vida é a comodidade de alguns, a falta de vontade de outros e as incertezas de muitos em situações sobre as quais eu também dependo. Detesto incertezas. Para mim a vida é muito preto no branco, ou isso ou aquilo. Se tenho dúvida? É porque não é isso que eu quero pra mim. Às vezes eu acho que a gente tem que se arriscar mais do que pensa que pode aguentar. "Só acerta é quem tenta em vão" e para mim não interessa o quão ridícula eu vou parecer, os sentimentos estão acima da capacidade lógica e por mais que eu tenha raiva disso, aceito e sigo em frente. Quem dera todos pudessem seguir em frente e não ficar remoendo tanto o que aconteceu ou deixou de acontecer assim. Quem dera, também, que em todos os assuntos isso fosse possível.

domingo, 15 de março de 2015

Estranho seria.

           
Acho que foi no ano de 2009 que comprei meu primeiro All Star. Ele era preto, de cano alto. Hoje tenho certo receio, evidentemente, em usá-lo, mas nunca quis me desfazer dele. Ele pode estar um pouco rasgadinho, talvez o branco da ponta já está mais amarelado, mas pelo menos sei que ainda está comigo. 
            Recordo-me do dia que ele começou a estragar mais do que deveria, deve ter sido das longas horas que o calçava e andava para lá e para cá pelos tijolos que cercavam meu colégio de Ensino Fundamental. Pensei em encontrar um novo para fazer companhia para ele. Mas eu queria que fosse um azul.
            Jamais, na minha vida, pensei que seria tão complicado e cheio de empecilhos encontrar um All Star Azul. Já havia gostado de tantos, mas nunca verdadeiramente me apaixonado. Parece idiota os termos utilizados, mas qualquer um que já teve um All Star sabe que temos com eles uma história de amor, que não deveria se apagar por qualquer coisa.
Até que aconteceu. Encontrei um par anos depois. Foi rápido, foi impressionante e totalmente inesperado. Eu ficava contente só de pensar na possibilidade de andar com ele por aí. Era um All Star Azul único, diferente. Contra todas as possibilidades, ele me fazia confortável na manhã mais inútil. E me reconfortava ainda mais à noite passado o longo dia, mesmo na mais escura e quente do verão. Sim, do verão. Quase ninguém gosta de ter um All Star no verão, não é? Mas eu achava bem legal.
Porém tão rápido quanto veio, foi embora sem nenhuma chance de eu realmente o tirar da gaveta uma última vez. Pelo menos foi o que me pareceu. Não entendi, não entendo, exatamente o que aconteceu. Era uma tarde de sábado e, por algum motivo, meu All Star Azul estava mudado. Seus cadarços não mais faziam um nó bonito, aquela borrachinha vermelha que separa o tecido da sola havia desgrudado. Pensei que pudesse ter conserto, mas o sapateiro não parecia se importar com o que eu queria, apenas pegou o meu All Star Azul.

Enquanto isso, o preto de cano alto continua aqui, com pouquíssimas esperanças de alcançar a vida que ele esperava, mas está aqui. Aposto que ele vai virar um chato daqui um tempo de novo, como sempre vira. Do nada, e não mais que de repente.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Sobre amizade, daquelas de verdade.

       Amizade, sem dúvida, nasce de uma forma inesperada. É uma expressão do sentimento mais puro da humanidade. Não digo que o amor entre casais e familiares não o seja também, mas o amor entre amigos é, além de tudo, uma escolha por afinidade e simpatia. É difícil imaginar que, no ano de 2015 em que nos encontramos, é raro uma amizade se manter fora do mundo virtual.
       Por mais que as pessoas tentem, a rotina árdua de estudo e trabalho não mais está restrita a apenas uma faixa etária. Todos estão, de algum modo, envolvidos e tendo que conviver com ela. A evolução tecnológica, ainda que não suficiente, auxilia nesse ponto a partir do momento em que facilitou e agilizou as conversas por mensagem de texto, voz e, algumas vezes, até por vídeo. Pode, inclusive, aproximar um pouco o que (ou quem) está distante.
       Porém, amizade de verdade não se faz através de teclas e caracteres. Amizade de verdade é aquela que a distância não interfere pois a vontade de se ver é maior que ela. Dizem que isso é clichê, mas qualquer que possa chegar a ser o melhor sentimento do mundo, se bem analisado, se desmistifica como um clichê que deu certo. Amizade é compreender a falta de tempo, ou a sobra dele nos momentos de tédio; é comprar um presente completamente errado só para ver a reação do amigo, que por anos vai reclamar do que ganhou na mesma intensidade em que também vai rir contigo, ou comprar um extremamente certo, e vê-lo descrente; é passar por aqueles momentos de angústia que ninguém esperava olhando nos olhos vermelhos e inchados, passando a mão nas bochechas para secá-las numa forma de reconforto; e, principalmente, é entender as situações em que esse reconforto demorará a ser sentido novamente.
       Não adianta, o tempo passa, os caminhos diferentes se percorrem e ser amigo apenas não basta. Amizade é mais que isso. É basicamente um comprometimento que ninguém percebe estar fazendo exatamente porque é natural, ainda que não instantâneo. Amizade é sim, em uma de suas tantas verdades, se fazer sentir presente, ou, em alguns casos mais complicados e lastimosos, ausente.
       As redes sociais, então, não passam de um auxílio para amizades que se concretizaram fora dali. Longe daquele mundo de letras perfeitas, margens alinhadas e corretores ortográficos automáticos. Os sons de risada, as frases de efeito com certa entonação que lembram alguém, as "saídas", tudo insubstituível. Por mais que a vida não mais permita, há lá a memória uma parte que eterniza o que realmente jamais deixará de ser uma amizade verdadeira.



(Redação UFRGS 2015 - adaptado)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Por que é tão difícil viver "nos dias de hoje"?


Não é possível que apenas no século XXI as pessoas se perguntem isso. Conforme o tempo passa, as respostas podem ir mudando de estrutura, forma e conteúdo, mas sempre, sempre haverá uma resposta digna e coesa. Antes era porque as mulheres não eram respeitadas, então elas tomaram parte no campo de batalha e afrontavam os homens, até que chegamos na Era em que homens e mulheres perderam suas vozes.
Na infância, ninguém acredita em nós porque somos muito pequenos para termos um senso crítico. Na nossa adolescência, nem nós mesmos podemos acreditar que pensamos isso ou aquilo, nem que já tenhamos agido de tal forma, imagina se as outras pessoas nos levarão à sério. Quando adultos, por favor, “todo mundo mente”. Então, por que é tão difícil viver “nos dias de hoje”?
Porque as pessoas param de amar. Não me refiro só a relacionamentos, mas ideais, perspectivas de uma vida em potencial que elas não querem mais lutar para ter. Atualmente, se aprende em qualquer filme da Disney uma concepção de romantismo desde que nós somos pequenos humanos, e talvez isso nos deixe marcas sem retorno, mas é incrível como alguém se define através de seu desenho infantil, porque para todos é confortável falar de sua personalidade por metáforas. Princesas como Cinderela, guerreiras como Mulan, excluídos como Tarzan, brutos mas apaixonantes como Stitch. Atualmente, ser romântico é brega, e ainda que seja, ser romântico é um conceito um tanto expansível e avaliativo demais. Ridículo, muitos diriam. Talvez, os outros concordariam.
Porque as estações mudam dentro de nós. Às vezes somos verão, e não queremos nada por perto porque somos autossuficientes, embora vazios de grandes novidades. Às vezes somos outono, e conseguimos viver na nossa melancolia porque é nessa estação que colocamos nosso trabalho em dia e nos esforçamos até o último para não rompermos o ciclo do legado de nossas vidas. Às vezes somos inverno, tão carentes, mas não conseguimos assumir nem demonstrar, porque ao mesmo tempo somos tão gélidos. Às vezes, porém, também somos primavera, que é quando acabamos obtendo certa realização, o que causa alergia em alguns e alegria em outros. Com tudo isso, agora não é difícil entender como é complicado de se conviver, porque como podemos fazer para assimilarmos as estações e fazê-las se harmonizarem num mundo de pessoas distintas?
Enfim, porque as respostas jamais cessam. Varia de realidade, varia de experiência. Por que é tão difícil viver “nos dias de hoje”? Porque “tudo muda o tempo todo no mundo”.


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Pode ser um gato.

       Vejo por aí que muita gente critica John Green de uma forma bem intensa, alegando que seus livros são previsíveis, muito "água com açúcar", puros demais para o cotidiano que encontramos fora daquelas páginas. Sabe, admiro John Green muito antes de os rumores sobre o lançamento de um filme com base no seu livro começar. Minha primeira dose se deu com "A Culpa é das Estrelas" confesso, que logo seguiu para "Cidades de Papel", "Quem é você, Alasca?", "O Teorema Katherine" e, por fim, "Will Grayson, Will Grayson", o qual é uma parceria de John Green com David Levithan, na verdade.
        Não foi difícil me apaixonar por cada personagem e logo me acostumar com a escrita de John Green. Cada metáfora, cada ironia, cada passo que quase podia sentir no chão à minha frente. Cada Mountain Dew bebido por seus personagens em todos os livros, despertaram em seus leitores a sua devoção. Muitos criticam isso também, que ele induz as pessoas a acreditarem nas suas teorias mais diversas, mas, ora, perdoem-me: ele apenas faz você ter curiosidade e refletir sobre elas.
       Ultimamente, então, peguei-me pensando sobre o último experimento citado no livro "Will Grayson, Will Grayson" que havia me parecido tão interessante. Mesmo sem muitas noções da mecânica quântica, os autores colocaram em questão a suposição de Erwin Schrödinger, lá em 1935. De uma forma bem básica, segundo o experimento dele, havia um gato dentro de uma caixa lacrada e, junto dele, um veneno letal ao gato e um martelo. O que decidiria se o frasco de veneno iria quebrar ou não, seria o mecanismo que está ligado ao martelo, que às vezes aciona, às vezes não. Segundo a física quântica, depois de um tempo dentro da caixa, o gato estaria tanto vivo quanto morto, os dois ao mesmo tempo, pois nunca poderíamos saber se o frasco foi quebrado ou não, a menos que tomemos a decisão de abrir a caixa e ver. E, sabe, não é o que acontece com nossas vidas, às vezes?
        Tudo bem que há momentos que não temos como sanar essa questão, como a espera do listão de vestibular em que o sim e o não são inerentes, mas tem situações que a gente pode sim abrir a caixa com nossas próprias mãos e ver o que acontece. Também concordo que uma faca de dois gumes um dia acaba por te fazer sangrar, mas viver naquele sim e não simultâneo não é uma boa forma de te privar de um momento que pode ser bom simplesmente com a suposição de que ele possa vir a não ser. 
         É só mais uma caixa, é só mais uma probabilidade, então por que não abrir e ver que o gato pode estar vivo?


sábado, 26 de abril de 2014

O dom do silêncio.

        Sabe quando o silêncio resume tudo o que você não quer falar? 
        Não parece muito comum estar num parque em que não se tenha barulhos abundantes. Num parque em que se possa ouvir os filhotes de labrador brigando por um graveto perto do chafariz, ou o arrulho dos pombos que apenas buscam por migalhas no chão, porém posso dizer que tive a sorte desta ocasião. Se havia pessoas lá? Claro que sim, amigos inclusive, mas acho que assim como eu, eles foram tomados pela miraculosidade daquele silêncio que, de tão natural, nos fez o aderir. Passamos a observar. As palavras, naquele momento, fariam o papel daquele chocolate granulado que já não gruda mais no brigadeiro porque ele já está muito bem coberto, seriam exacerbadamente  desperdiçadas. Somos, no final, também autores do silêncio.
        Era um pequeno estado de paz nos aconchegando no fim de uma semana, numa pequena tarde de sexta-feira em que o sol brilha apenas para deixar o outono com um toque de clássico, e digo até que muitos não têm essa virtude de se deixarem tomar por um sentimento tão puro. Reclamam do vento, do sol em seus rostos, do algodão doce que acabou, do carrinho de pipoca que range muito ao se deslocar. Elas não percebem que ao ventar, as folhas dançam no chão, que o sol bate em nosso rosto apenas para nos deixar um "oi" da estação que ele incide mais intensamente. Não percebem que às vezes acontece de o açúcar acabar e que há pessoas por aí que dariam muito para apenas saber que som faz aquele carrinho.
         Por isso, digo que momentos assim se assemelham a livros. Você deve ler com toda a concentração cada palavra, tirar suas conclusões subjetivas e cristalinas, porque normalmente ninguém deveria olhar pra ti e dizer como se sentir à respeito do que leu, muito menos do que viveu. Muitos leem rápido apenas para terminar, enquanto outros economizam cada página. Então, talvez depois de tudo, você tenha que fechar a contracapa e imaginar o que mais aconteceu com aqueles personagens, ou pegar um ônibus para casa e descobrir isso. Ainda assim, sempre tem algo que fica lá, de um lado para o outro na sua mente. Algo que te faz pensar em como o surpreendente consegue se colocar de forma tão nítida sem um mínimo de ruído. 
       Penso, pois, que é para não ter o perigo de não o escutarmos.